Segunda Parte

(…)

Minha reação a isso foi chorar. Eu entrei em pânico, entre soluços eu me sentia uma perfeita idiota por tentar me fechar a tal assunto, mais idiota ainda por achar que saindo do país estaria salva do que poderia vir a acontecer. Como eu pude me fechar tanto dentro do meu próprio mundinho? Isso era absurdo.

 Heinrich me abraçou, me acalmou sobre o assunto e contou que precisava viajar por tempo indeterminado, e queria que eu fosse forte o suficiente para enfrentar o futuro, aliás, me fez prometer. Dentro de mim existia uma revolta imensa. Como assim ele ia viajar e me deixar? Logo depois de me dar esse tipo de notícia? De me fazer acordar para a vida? Eu não conhecia ninguém direito na Polônia. Mas mesmo assim eu afirmei, e assim que o fiz, ele me entregou um anel,  prometendo voltar e se casar comigo. Com isso eu o beijei, e guardei aquele anel comigo de modo que até hoje o tenho.  Ele passou aquela noite me segurando em seus braços, cuidando de mim antes da sua viagem.

No dia seguinte, meu amado professor partiu, eu  não estava acordada, não sabia para onde, nem quando ele voltaria. Portanto a hora que acordei, tentei preocupar minha cabeça com outra coisa, peguei todos os jornais possíveis e imagináveis, e me informei o máximo que eu podia sobre tudo o que estava acontecendo na Alemanha, o que mais tarde eu percebi, já não era só na minha terra natal, mas em boa parte da Europa. Eu sabia da guerra, só não sabia das proporções que ela havia tomado. Me senti segura no primeiro momento, porque eu não era judia, nem polonesa, nem nada que os nazistas poderiam usar contra mim, era uma alemã nativa, apaixonada pela própria terra, e que simplesmente, não seguia um partido, nem mesmo uma religião.

Segui minha rotina de estudos, muito menos animada, e com uma substituta de filosofia completamente insuportável. Sentia falta do meu Heinrich, e carregava comigo nosso anel pendurado em uma corrente, escondida debaixo das minhas roupas. O clima em sala de aula era sempre muito tenso e a maioria dos alunos entrava em uma espécie de transe olhando para a parede, provavelmente pensando sobre o avanço nazista.

Quando os alemães concretizaram a invasão a Polônia, eu me tranquei em casa. Foram mais ou menos 40 dias, sem sair. Assistindo carros e mais carros com soldados armados nas ruas, abordando pessoas. Eu comia pouco, mal dormia, me debruçava sobre o rádio para ouvir mais sobre os acontecimentos. Dois campos de concentração foram construídos não muito longe da Cracóvia, Birkenau e Auschwitz, rumores diziam que quem ia para um desses, jamais retornava, ninguém sabia certo o que acontecia.  Aliás, rumores era o que mais tinha para todo o lado, podia ouvir meus vizinhos discutindo, o que eu lia nos jornais, ouvia nos rádios. E depois desses 40 dias, o que eu ouvia e via nas ruas também, lojas fechadas, um horário determinado para todos irem para as suas casas, judeus e suas estrelas no peito, sem falar nas humilhações e nas agressões vindas de soldados.

Em uma das minhas idas ao mercado, fiquei sabendo sobre os apelidados ‘agentes secretos do Hitler’, policiais do mais alto cargo, que batiam nas portas das pessoas com as ordens para ir ao campo. Claro, quando já não se era capturado ou morto nas ruas. Eu ficava completamente horrorizada com tudo aquilo, e o medo, bom, o medo acabou por tomar conta de mim também, afinal de contas, eu mais uma vez estava sozinha e completamente perdida em meio a toda bagunça. Achei que o mais seguro seria me trancar novamente em casa e apenas esperar o furacão passar.

Até o dia em que a minha campainha tocou. 

(…)

Primeira parte

Me chamo Sophia Heinakowski, eu nasci e fui criada em Berlim. Porém a marcação em meu braço diz que eu sou o nº 2100589. Se hoje escrevo essa história, é porque pessoas cometem erros, e durante a minha adolescência, qualquer erro era fatal. Meu pai era alemão, minha mãe italiana, por essas e outras meus traços não se encaixavam muito com os traços de um alemão ‘comum’, ou como era pregado naquela época ‘ariano’. Eu nunca fui uma criança tida como popular, ou carismática. Vou usar a chance de me defender aqui, carismática eu era, mas apenas com aqueles que eu gostava. Tinha um orgulho maior do que o mundo inteiro e, desde muito nova, me perdia em leituras que não eram para a minha idade.

Quando o nazismo começou, eu tinha 15 anos. Ainda considerada uma criança, coisa que eu tenho plena consciência de que eu não era. Entretanto, eu não escolhi um lado nesse inicio de guerra, aliás, com todos os acontecimentos eu não tive sequer como escolher um lado. O partido cresceu, e quando eu estava celebrando os meus 17 anos, Adolf Hitler subiu ao poder, um homem cujo os feitos eu só ouvia em comentários alheios. Alguns dias depois acabei decidindo estudar na Cracóvia.  Nunca tinha visto nada de muito diferente na Polônia, mas a Alemanha estava por si só um caos com toda a história de guerra  e, na minha cabeça, sair do país, sendo jovem, me salvaria do que quer que fosse acontecer.

Bom, pena que não escolhi um lugar mais longe.

Eu era uma aluna dedicada, principalmente porque tinha escolhido estudar a área de humanas, algo que gerava total fascínio de minha parte. Me sentia muito acolhida pelos poloneses, portanto toda manhã, levantava animada e ia para a aula. Ok, falando a verdade, talvez esse não fosse o único motivo pelo qual eu levantava animada, como se é de se esperar nessa idade, mesmo perdida entre todos os meus livros, eu me apaixonei. Você pode me perguntar o que tem de errado nisso? Bom, eu me apaixonei pelo meu professor de filosofia, seu nome era Heinrich Schloss e ele tinha 38 anos, esse era o erro. Erro o qual se tornou maior ainda, quando esse meu amor, se tornou recíproco. Demorou mais ou menos 2 meses para que eu transparecesse que sentia algo, sempre muito bem disfarçado, pois meus colegas não podiam notar meus flertes. Eu gostava dele muito mais do que eu deveria, mas a minha maior surpresa, foi que depois de algumas semanas, pela primeira vez, Heinrich me chamou para um café, e foi assim que basicamente, eu entreguei meu coração.

Os encontros se tornaram frequentes, sentávamos em cafés, andávamos em parques distantes, e nossos debates sobre a história do mundo, duravam horas. Por entre seus abraços e carícias eu sabia que jamais voltaria para a Alemanha, e que assim que tivesse a idade, me casaria com aquele homem. Heinrich aparecia algumas manhãs na minha porta, apenas para me desejar um bom dia, ou para conversar. Outras vezes, apareciam bilhetes ‘misteriosos’ dentro de meus livros, sempre assinado por um H.S. Era difícil, até mesmo para mim, acreditar que poderia existir tal romance entre nós. Principalmente porque eu nunca fui muito de romances.

Como nem tudo são flores, um certo domingo, estávamos sentados em minha varanda quando meu até então ‘amante’ me perguntou: “Qual sua opinião sobre o nazismo?”, lembro que respondi a ele que não tinha nenhuma opinião formada, e que me privava de saber qualquer coisa sobre, porque preferia focar nos meus estudos e porque tinha esperança que em um curto período de tempo isso iria acabar. Assim que terminei de responder, notei a postura de Heinrich mudar, ele ficou muito sério e então perguntou: “Você não tem lido os jornais?”, neguei. Sendo assim, ele me contou sobre os guetos, campos de concentração, invasões, roubos e o pior de tudo: que os nazistas estavam para avançar rumo a Polônia. 

(...)

Quem é você de verdade?
Você não é um nome, ou um tamanho, ou altura.
Você não é uma idade, não é de onde veio.
Você é seus livros preferidos e as músicas da sua cabeça.
Você é seus pensamentos, o que você come de manhã no sábado.
Você é milhares de coisas, mas todo mundo escolhe ver as milhares de coisas que você não é.
Você não é de onde vem, você é pra onde vai.
E eu, gostaria de ir junto

Desconhecido

Sossego

Quem me conhece sabe que eu não sou o tipo de garota de vários e uma noite só. Ouso dizer que talvez nunca tenha sido. Quem me conhece também sabe da minha tendência de amadurecer um pouco mais rápido, mas não estou aqui para discutir isso.

Muitos podem olhar pra mim e dizer, “você está na melhor fase da sua vida, vai pra balada, enche a cara, pega geral, curte e blablabla”, repito: não sou assim, não funciono assim. Na real, eu consigo confessar que não quero mais “procurar um homem certo pra mim” e ficar quebrando a cara o tempo todo, por que convenhamos, durante a adolescência isso acontece bastante. Já com o pé nos meus 19 anos eu penso que queria alguém. Mas assim, alguém de verdade. Sabe aquela velha história, de casais que se conheceram sei lá, no Ensino Fundamental e estão juntos e casados agora com seus 40 e poucos anos? Eu quero isso pra mim. Quero muito.

Quero sossegar dessa coisa de procurar, quero sair pra balada com uma pessoa do meu lado, ver nós dois bêbados dançando no meio do nada, mas voltar para casa, tomar um banho juntos e deitar pra ver um filme. Quero o calor sincero entre dois corpos. Quero aquele beijo entrelaçado a um sorriso. Quero brigar porque o quadro da sala tá torto e ele teima que não tá. Quero cócegas no sofá. Quero fazer café da manhã. Quero aquele abraço surpresa, aliás, quero surpresas. Quero uma flor no trabalho. Quero aventuras. Quero filmes na última sessão do cinema. Quero a rotina, mas também quero a quebra dela. Quero acampar. Quero planejar viagens. Quero bichos de estimação. Quero festas. Quero bagunça na cozinha as 2 da manhã. Quero a sedução. Quero as piadas sem graça. Quero os amigos lá em casa. Quero um apê, nosso apê. Quero uma vida juntos. Quero sonhos construídos e realizados. Quero a saudade de uma viagem separados. Quero a sexta da galera, o sábado só a dois, e o domingo com a família. Quero dormir e acordar ao lado de alguém. Quero um bilhete “eu te amo, fui trabalhar, nos vemos de noite”. Quero chegar em casa e ver velas, um jantar. Quero mandar uma mensagem com um ponto de encontro surpresa. Quero rodar o mundo com a mão na mão dele.

E um dia, quem sabe, um casamento. Não acho que isso seja o essencial, nem mais importante do que tudo o que eu falei ali em cima. O amor por si só já vale mais que tudo. Quero o Always do meu Forever. Quero meu infinito. Porque pra mim de nada adianta deitar ao lado de vários, não estando com o que vale apena de verdade. Amor é amor, o resto…é resto.

Espero me encontrar, e o encontrar, ao longo dos próximos anos, mas não quero que demore não. Sei que tudo tem seu tempo, mas eu tenho muito amor pra dar aqui dentro. E se ele estiver bem debaixo do meu nariz, que eu descubra logo.

Venha logo meu amor, eu espero você.

~

(Carolina Sartorio)

Como deveria ter sido.

Já comentei que odeio domingos? É. Eu odeio domingos. Não só porque a segunda feira vem logo em seguida, mas também por ser um dia que transborda preguiça. Levantei  tarde como de costume, e, para variar, minha mãe tinha ido trabalhar. Depois de aparentemente fazer uma enorme força, levantei da cama, me arrastei até o banheiro e tive uma daquelas tentativas frustradas de parecer gente logo quando acorda. Desci as escadas lentamente, seguindo meu instinto de fome, peguei meu cereal, e quando finalmente ia sentar no sofá, notei que não estava sozinha.

Bryan estava sentado no meu sofá. O culpado das minhas noites em claro.

- O que você está fazendo aqui? - disse petrificada no meio do corredor.

- Peguei as chaves com sua mãe, precisava falar com você - ele forjou um sorriso

- Bryan, não. Eu não posso passar por isso de novo, eu disse que não queria mais conversar com você. Você teve uma semana inteira para me dizer qualquer coisa e não o fez, não posso ficar me iludindo. Tá na hora de eu seguir em frente, pode por favor ir embora? - larguei meu cereal no canto da escada e abri a porta.

- Não! Kath, espera! Me dá só 5 minutos. 5 minutos antes de você me jogar pra fora da sua vida de novo. Me deixa tentar explicar todo esse amor que está preso aqui dentro. - ele tinha levantado e estava parado bem na minha frente, com os olhos de quem de fato estava desesperado para falar.

Suspirei.

- 5 minutos.

- Me desculpa. Me desculpa por ter te decepcionado tantas vezes. Me desculpa por nunca ter tomado as atitudes que eu sabia que você gostaria que eu tivesse tomado. Me desculpa por ter te tratado tão mal por meses, por não ter te ouvido! Me desculpa por não ter vindo antes, eu não sabia se era certo, fiquei com medo de você me expulsar de novo. Mas eu estou aqui agora, e queria me desculpar de tudo o que eu já fiz de errado. Queria mostrar pra você que eu posso ser diferente, que nós podemos ser diferentes. Me dá uma chance de te mostrar que eu mudei. Que eu posso ser o cara que você sempre quis.  Eu…

Nesse meio tempo já não conseguia conter minhas lágrimas. Era tudo tão dificil, tão complicado. E agora simplesmente enterraríamos tudo para dar início a uma nova chance. Uma nova chance de verdade. Será que eu estou preparada pra isso? Será que eu aguento me ferir mais uma vez? Bom, talvez pior que eu estou, não dê pra ficar. Eu sei que sinto falta dele. Preciso fazer algo a respeito, não dá mais para ficar apenas remendando os pedaços.

- … sei que pode tudo parecer uma bagunça agora, mas acho que se a gente… - ele continuava falando sem sequer perceber que minha mente já estava ignorando todas as mesmas declarações dele.

Então eu simplesmente o abracei. No meio do discurso. Senti o calor do seu corpo cruzando o meu novamente, e aquele aperto de abraço sincero, de duas pessoas que se amam. Depois de olhar sorrindo para ele, o beijei. O beijei deixando tudo para trás, aceitando todos os erros, fossem meus, ou dele, e dando chance para acreditar mais uma vez em todas aquelas promessas. Era um novo tempo para nós dois.

E eu estava disposta a arriscar tudo, uma última vez.

~

Carolina Sartorio

Palavras vazias de um poema mal escrito

Como podem os individuos mais malditos do planeta se auto-denominarem genios?
Como podem os vazios permanecerem vazios ainda que nunca, sequer uma vez, sós?
Como podemos acreditar que a morte, nos é cruel e injusta, quando muitas vezes nos salva de almas sombrias?
Tantas perguntas a serem respondidas. Tantas pessoas sendo usadas feito objetos de uma prateleira empoeirada.
Tanto tudo, tanto nada.

Lavanderias.

Eu gosto de lavanderias. É. Isso mesmo. Lavanderias. Não a que você provavelmente tem perto da cozinha na sua casa. Me refiro àquelas de rua mesmo, que de vez em quando você, ou sua mãe, leva algum vestido, ou roupa de cama para lavar. Hoje mesmo eu passei em frente de uma. E eu não sei explicar porque diabos eu gostei tanto de ter passado 10 segundos de frente para a porta.

Talvez seja o cheiro. Cheiro de ferro quente. De roupa lavada. Ou talvez a lembrança de bolhas de sabão, o barulho da máquina, da água… Eu não sei. Mas me vem um ar extremamente aconchegante em tudo isso. Me dá uma vontadezinha louca de entrar e ficar ali, curtindo a lavanderia.

Eu juro que não queria parecer maluca, nem postar um texto idiota para vocês. Porém eu estou sentindo falta do aconchego. E cada vez mais as coisas pequenas me fazem feliz.  

Sei lá.